A RAINHA ELISABETH I DA INGLATERRA FOI REALMENTE UMA SERVA DE DEUS?

Por Marco Elias Retrato de Elisabeth, pintado por volta de 1546 por Willian Scrots, um artista da Holanda que era empregado do rei ...

Por Marco Elias

Retrato de Elisabeth, pintado por volta de 1546 por Willian Scrots, um artista da Holanda que era empregado do rei Henrique VIII a partir de 1545 e permaneceu na folha de pagamento real até a adesão de Maria I em 1553.

A rainha inglesa Elisabeth I foi uma “protestante praticante” como nós, em vários sentidos, mas infelizmente ela cometeu alguns erros terríveis. Dentre os seus acertos ela concedeu liberdade religiosa aos católicos e protestantes e seu principal erro (e talvez único erro) foi sua perseguição severa aos anabatistas (precursores dos batistas), e a condenação de alguns deles.

UM PARENTESE PARA ESCLARESCER A ORIGEM DOS ANABATISTAS

Naquele tempo o batismo infantil era praticado por católicos e protestantes reformados. Os anabatistas eram contra o batismo infantil (os reformados e os católicos eram a favor). Eram contra a união e controle da igreja pelo estado (Os reformados eram a favor). Existem várias questões que hoje nós evangélicos da ala radical defendemos e praticamos às quais os anabatistas já defendiam, mas morreram condenados ao afogamento e nas fogueiras por defenderem um evangelho digno e fiel à pregação de Jesus Cristo. Os anabatistas foram perseguidos por católicos, luteranos e calvinistas (presbiterianos), as principais igrejas da Europa reformada. Como o estado estava casado com estas igrejas protestantes em todos os países da Europa, os primeiros evangélicos do tempo de Lutero e João Calvino herdaram o mesmo estilo violento do estado repressor e manipulador da igreja que teve a sua origem no edito de Milão em 313, com o imperador Constantino. O sangue dos anabatistas serviu para abrir o caminho para a separação entre a igreja e o estado. Somos gratos a Deus por estes valentes que tombaram de pé honrando o nome de Cristo!

ELISABETH I, UMA BOA RAINHA OU UMA SERVA DE DEUS?

A rainha Elisabeth apesar de ser considerada por muitos desavisados uma serva de Deus integra, cometeu certos erros que custaram a vida de muitos servos fiéis do Senhor, principalmente entre os crentes que deram origem à igreja batista. Para sermos justos até podemos dizer que ela foi uma “verdadeira santa” em relação às barbaridades, conspirações, canalhices, orgias, adultérios e várias situações ímpias às quais o palácio inglês estava acostumado. Mas o padrão de medida dos servos de Deus não são os ímpios e o mundo, o padrão dos servos de Deus é a Bíblia Sagrada.

Em junho de 1575 a rainha Elisabeth I condenou à morte injustamente dois anabatistas holandeses que fugiam de perseguição religiosa, HENDRICK TERWOOKT de 25 anos, casado poucas semanas antes e que fugira para a Inglaterra pensando que a rainha inglesa (por ser conhecida como serva de Deus) seria misericordiosa. O outro cristão foi JAN PIETERS, um senhor de idade que tinha esposa e nove filhos dependentes do seu trabalho. A primeira esposa de JAN PIETERS havia sido martirizada em Flandres e a atual havia sido viúva de outro cristão que também morreu martirizado por sua fé. Assim, aquele casal que havia perdido cada um o seu cônjuge, contraiu um novo matrimonio para prosseguir cuidando da família, segundo os parâmetros bíblicos. A rainha da Inglaterra destruiu a alegria deles.

Diante de Deus e dos homens a rainha Elisabeth I não possuía nenhum motivo real para condenar aqueles dois chefes de família, os quais além de serem servos de Deus, eram homens de bem e sujeitos à autoridade. Aqueles dois homens submeteram à rainha da Inglaterra uma declaração de fé e de boa índole, que pode ser lida nas próximas linhas:

"Cremos e confessamos que magistrados são estabelecidos e ordenados por Deus, para punir os maus e proteger os bons; aos quais desejamos de coração obedecer, como está escrito em I Pedro 2:13, 'Sujeitai-vos, pois, a toda a ordenação humana por amor do Senhor'. 'Pois não traz debalde a espada' (Romanos 13:4). E Paulo nos ensina que 'devemos oferecer por todos orações, intercessões, e ações de graças, por todos os homens; para que tenhamos uma vida quieta e sossegada, em toda a piedade e honestidade. Porque isto ébom e agradável diante de Deus nosso Salvador, Que quer que todos os homens se salvem' (I Timóteo 2:1-4). Além disso, ele nos diz que devemos nos sujeitar 'aos principados e potestades, que lhes obedeçam, e estejam preparados para toda a boa obra' (Tito 3:1). Portanto, oramos para que Vossa Majestade amorosamente compreenda corretamente nosso propósito, o qual é, que não desprezamos a eminente, nobre, e graciosa rainha, e seus sábios conselheiros, mas os estimamos como dignos de toda honra, a quem desejamos ser obedientes em todas as coisas que pudermos. Pois confessamos juntamente com Paulo, como acima, que Vossa Majestade é serva de Deus, e que se resistimos a este poder, resistimos a ordenança de Deus; pois 'os magistrados não são terror para as boas obras, mas para as más'. Desse modo, confessamos estar sujeitos a Vossa Majestade, e prontos a dar, tributos, taxas, honra e temor, como o próprio Cristo nos ensinou, dizendo: 'Dai pois a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus'. (Mateus 22:21). Desde que, Vossa Majestade, é uma serva de Deus, nós amorosamente oramos para que se agrade em mostrar piedade a nós, pobres prisioneiros, pois até mesmo nosso Pai no céu é piedoso (Lucas 6:36). De igual modo, não aprovamos aqueles que resistem aos magistrados; mas confessamos e declaramos de todo o nosso coração que devemos ser obedientes e sujeitos a eles, como aqui registramos" (Von Braght, Martyr’s Mirror, p. 929).

A rainha Elisabeth I não se moveu da sua fúria santa, reformada, evangélica e totalmente justificável dentro do denominacionalismo reformado (determinismo fatalista). Que o caro leitor me perdoe, mas eu gosto de ironias. Os dois servos de Deus foram executados e suas esposas ficaram viúvas. O mandado judicial expedido pela rainha para matar estes dois homens era idêntico ao que a rainha antecessora sua irmã (por parte paterna) Maria, a católica expediu para matar outros servos de Deus no reinado anterior. O historiador John Cramp tomou diante de si os dois documentos e ficou horrorizado ao compará-los. Ambas chamam suas vítimas de "heréticos". Ambas assumem ser 'zelosas pela justiça'. Ambas são 'defensoras da fé universal'. Ambas declaram sua determinação em 'manter e defender a santa igreja, seus direitos e liberdades'. Ambas admitem sua resolução de 'desenraizar e extirpar os hereges e seus erros'. Ambas declaram que os hereges citados nas ordens de execução foram julgados e condenados 'de acordo com as leis e normas do reino'. (John Cramp, Baptist History, 1852).

Todo reino neste mundo teve ou ainda tem os seus erros, inclusive aquele maravilhoso reinado de Elisabeth I, que durou 45 anos e gerou sim (apesar dos erros) um saldo positivo para o reino de Deus. Toda a Inglaterra chorou por ela, afinal aquela rainha abriu mão de vários direitos pessoais para servir ao seu país e permitiu que muitos homens de Deus pregassem o evangelho sem impedimento algum. Uma conduta bastante digna neste aspecto. Elisabeth I terminou seus dias como uma mulher cristã fiel a Deus, dentro do alcance religioso daquele tempo, apesar dos erros anteriores (acima citados).

UM ENSINO PARA A IGREJA ATUAL

Não há dúvidas de que Deus “passeou no meio do arraial” nos tempos de Lutero, Calvino e outros homens que romperam com a igreja romana, os quais apesar de seus erros grotescos queriam andar com Deus e foram uteis ao seu projeto e foram abençoados poderosamente por isto. O principal erro dos seguidores destes homens foi a canonização dos seus métodos (juntamente com seus erros mais grotescos) em detrimento da obra maravilhosa que Deus faz nos corações dos remidos, a qual não pode ser armazenada dentro de uma caixa denominacional. A teologia pode ser sistematizada, segundo os conceitos e preconceitos dos homens. Há outros que dizem que não seguem uma teologia, mas este ato por si mesmo já define a teologia deles. O agir do Deus todo-poderoso, do seu Filho amado e o do seu Espírito Santo não podem ser sistematizados e limitados ao contexto meramente denominacional. O evangelho não é um monopólio alcançado por um único povo na face da terra. Quem creu nisto nos últimos 2.000 anos da historia da igreja conquistou mais inimigos religiosos do que almas em números reais para o reino dos céus.

De forma semelhante, toda denominação evangélica tem os seus erros particulares e quem disser que a dele não possui erros é mentiroso ou está enganado ou (na pior das hipóteses) ainda não tem o conhecimento pleno da graça de Deus. Se os servos de Deus observassem a história do cristianismo cometeriam menos erros. “Em parte conhecemos e em parte profetizamos!”


Referências Bibliográficas
Além das fontes citadas no texto o leitor poderá usar as seguintes fontes:

Use o Google tradutor caso não domine o idioma inglês.

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